segunda-feira, 25 de novembro de 2013

BALADA INSEGURA





ZERO HORA 25 de novembro de 2013 | N° 17625

EDITORIAIS


A mostragem estatística de acidentes em Porto Alegre reafirma a relação entre mortes no trânsito e o consumo de álcool e drogas. Os números são da Empresa Pública de Transporte e Circulação, em conjunto com a secretaria municipal da Saúde e a Delegacia de Delitos de Trânsito, e se referem à Capital, mas certamente são semelhantes aos de levantamentos na maioria das cidades brasileiras. Entre 42 casos de acidentes com morte analisados este ano, exatamente a metade teve, entre os envolvidos, a presença de álcool e também de maconha e cocaína. É a confirmação de que o massacre, principalmente de jovens, não representa uma fatalidade.

A maioria dos mais de 40 mil brasileiros que morrem todos os anos em acidentes é, na verdade, vítima da irresponsabilidade de quem dirige, da negligência dos governos e da complacência das leis e do Judiciário. Fatores relacionados com falhas mecânicas e outras questões técnicas são minoria entre as causas da mortandade em ruas e estradas. O que mata é a combinação de omissões e de atitudes delituosas. Desde 2008, quando o país adotou a chamada Lei Seca, corrigiu-se parte das deficiências. Mas se constata que, apesar das campanhas e blitze, como as da Balada Segura em Porto Alegre, ainda é preciso fazer mais.

É longo também o caminho a percorrer em escolas e instituições que podem intensificar ações educativas para as novas gerações. E o próprio Judiciário precisa adequar-se a uma realidade em que a impunidade é um complicador para quem participa dos esforços pela redução dos acidentes. Nesse contexto, merece reprodução este desabafo do juiz Carlos Eduardo Richinitti, em recente artigo publicado em Zero Hora: “Não se prioriza educação, a lei é absolutamente frouxa e nós, juristas, talvez até porque esse é um crime que qualquer um pode cometer, em nome de garantias fundamentais, fundamentamos cada vez mais a impunidade que mata como guerra”.

Não é a manifestação de um leigo, mas de um integrante do Judiciário, sobre a complacência com responsáveis por acidentes comprovadamente causados por motoristas alcoolizados. Num momento em que os gaúchos ainda estão traumatizados com a morte da jovem de 16 anos que teve o carro em que voltava de uma festa atingido por um condutor jovem com sinais de embriaguez, é de se perguntar se as comunidades, as forças de segurança, o Ministério Público e a Justiça fazem mesmo o que lhes compete em nome da paz no trânsito. Para que a resposta seja sim, é preciso fazer muito mais, especialmente agora, às vésperas das festas e, infelizmente, também das tragédias de fim de ano.

Comunidades e instituições precisam fazer muito mais para que o massacre no trânsito deixe de ser visto como fatalidade.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - É um equívoco culpar os juízes e a falta de adequação do judiciário, pois eles aplicam a lei existente e não há como fugir dos vários recursos e dispositivos condescendentes de uma constituição extensa, mal redigida, assistemática, detalhista, redação confusa e com vários dispositivos que garantem privilégios e asseguram direitos individuais beneficiando os autores de ilicitudes e contrários á supremacia do interesse público, em que a vida das pessoas é prioridade. Esta sim é a grande culpada da morte de 40 mil brasileiros em acidentes de trânsito.

domingo, 24 de novembro de 2013

MOTORISTA MORRE APÓS BRIGA DE TRÂNSITO

ZERO HORA 24 de novembro de 2013 | N° 17624


TENSÃO NAS RUAS



Um homem de 60 anos foi morto ao levar diversos socos e pontapés após uma uma briga de trânsito no final da noite desta sexta-feira, em São Leopoldo, no Vale do Sinos.

O caso ocorreu às 23h20min, quando o motorista Cirilo Vieira da Silva dirigia um Corsa no Albino Tim, no bairro Feitoria, e colidiu com uma moto, onde estava um casal.

Ao parar para prestar socorro, Silva foi atacado por um terceiro homem que passava pelo local e se aproximou para agredir o motorista, desferindo socos e chutes. Quando a Samu chegou ao local, o homem já estava desmaiado. A vítima teve uma parada cardiorrespiratória e morreu a caminho do hospital. O corpo foi levado para o Departamento Médico Legal de Novo Hamburgo para a realização da autópsia.

O agressor, que já foi identificado pela polícia, seria um conhecido do motociclista ferido. Ele fugiu do local e até as 9h deste sábado não havia sido preso. O casal foi socorrido no Hospital Centenário. O motociclista Josué Campos Domingues, de 20 anos, foi liberado. Sua namorada, de 18 anos, que não foi identificada, sofreu uma fratura na perna e segue hospitalizada.

Segundo o delegado Vinícius do Valle, da Delegacia de Homicídios de São Leopoldo, a polícia ouviu o motociclista como testemunha e, agora, busca outras fontes para prestarem esclarecimentos a respeito do homicídio. Novos depoimentos serão prestados a partir de segunda-feira:

– Os agentes estão na rua para localizar o suspeito e as testemunhas, mas aguardamos os exames periciais para dar rumo à investigação – esclarece o delegado.

Do Valle explica ainda que, segundo as pessoas que estavam no local e presenciaram a agressão, a vítima morava no bairro e teria sido visto dirigindo embriagado no momento do acidente.

LARA ELY

REVOLTA NA ZONA SUL

ZERO HORA 24 de novembro de 2013 | N° 17624

PAULO GERMANO

Motorista foge após matar menina em atropelamento

Acompanhada da irmã e da prima, criança foi atingida na Oscar Pereira, a três quadras de casa



Mais uma vez, no intervalo de uma semana, um motorista provoca uma morte em Porto Alegre e foge. Mais uma vez, quem morre é uma menina – Emily Caroline da Silva, 11 anos, atropelada na noite de sexta-feira na Zona Sul. Mais uma vez, uma família em frangalhos suplica por justiça.

No Hospital de Pronto Socorro (HPS), Emily morreu após ser atingida por um Nissan Sentra, por volta das 21h30min, na Avenida Oscar Pereira, nas proximidades do Motel dos Alpes. Acompanhada da irmã Cauana, nove anos, e da prima Tatieli, 17, ela voltava a pé da residência de uma tia, onde havia buscado um ventilador que a família emprestara, e estava a três quadras de chegar em casa.

Emily olhou para os dois lados antes de atravessar, conforme conta Tatieli, e não viu carro algum. Mas o Sentra teria chegado de supetão, em alta velocidade, atropelando a garota e deixando as outras em choque na beira da pista. De acordo com a prima da vítima, o homem que conduzia o automóvel parou o veículo, ergueu Emily no colo, retirou-a do meio da rua e acomodou-a na calçada. Depois, retornou ao volante e foi embora, sem prestar socorro.

No acidente, automóvel perdeu uma das placas

Com o impacto do atropelamento, o carro perdeu uma das placas, que ficou no asfalto. Na manhã de sábado, a Polícia Civil já trabalhava na identificação do motorista. Enquanto isso, em frente ao Departamento Médico Legal, a mãe de Emily, a gari Alessandra Soares da Silva, 29 anos, chorava compulsivamente.

– Tem que pegar o homem que matou a minha filha. Bota isso no jornal, que o resto não me importa – foi a única frase que Alessandra conseguiu dizer.

Emily era a segunda mais velha entre oito irmãos. Tinha um padrão de vida humilde e estudava na Escola Estadual Espírito Santo, no bairro Cascata, perto de casa, na zona sul da Capital. Tio da menina e irmão de Alessandra, Eudens Soares da Silva conta que sempre orientou as garotas a prestarem atenção em toda a avenida antes de atravessar a Oscar Pereira:

– E a Emily fez isso, ela olhou certinho para os dois lados. Mas, quando botou o pé no asfalto, veio o carro muito rápido, detrás de uma curva – afirma o tio.

Cauana, a irmã mais nova que acompanhava Emily, não sabe ainda que ela morreu. Conforme a prima Tatieli, logo após o acidente, Cauana ajoelhou-se na calçada e pediu que a irmã falasse. Não foi atendida.


OUTRO CASO

Episódio causou comoção - Na madrugada do último dia 16, quando uma EcoSport foi atingida por um Corsa no bairro Navegantes, em Porto Alegre, causando a morte imediata de Bruna Lopes Capaverde, 15 anos. O motorista do Corsa fugiu, mas foi localizado em seguida por agentes da EPTC.



sábado, 23 de novembro de 2013

DA DOR À AÇÃO

ZERO HORA 23 de novembro de 2013 | N° 17623

CARLOS GUILHERME FERREIRA


LÁGRIMAS QUE MOTIVAM

Após perda de filhos em tragédias, pais atuam no voluntariado para tentar evitar casos semelhantes


Dois dias após perder a filha Bruna, de 16 anos, em um acidente de automóvel, na madrugada do último sábado, em Porto Alegre, Francisco Capaverde já tinha em mente o que fazer para tentar amenizar a dor: participar de campanhas de prevenção a acidentes. Assim como outros pais, o administrador de empresas sabe que nada trará a filha de volta, mas aposta que o trabalho de prevenção pode evitar que casos como o seu atinjam outros lares.

Para muitas pessoas, acontecimentos traumáticos, como a morte de um filho, viram motivação para o trabalho voluntário. A noite de 18 de setembro de 2006 mudou para sempre a vida de Noli e Senaile Backes. Um tiro disparado em um assalto ao mercado do casal, em São Leopoldo, matou o adolescente Lenon Joel, 16 anos, mas fez nascer um projeto que agora atende a 470 crianças e adolescentes e emprega 35 pessoas. Para os dois, a morte do filho único transformou-se em combustível para tentar afastar crianças e adolescentes da criminalidade no bairro São Miguel, local da tragédia.

Hoje, Noli divide-se entre a cidade natal da família, Porto Vera Cruz – às margens do Rio Uruguai, na fronteira com a Argentina –, e São Leopoldo. Segundo ele, já no velório de Lenon Joel havia a ideia de uma “reação pacífica”.

A saída da dor para a ação foi difícil, recorda Noli, pois o casal não sabia o que fazer. Onze dias após a morte, uma caminhada reuniu cerca de 4 mil pessoas e reforçou o sentimento que imperava nas reuniões realizadas na garagem do mercado após a morte do jovem. Dali nasceu o plano da organização não governamental (ONG), que surgiria menos de dois meses depois.

– Em 8 de novembro, já tínhamos legalmente constituído o Instituto Lenon Joel pela Paz – recorda o pai do garoto.

Trabalho traz “ânimo na vida, satisfação e força para viver”

As atividades começaram na garagem do mercado e incluíam oficinas de futebol – Lenon Joel adorava o esporte –, violão e flauta. Cresceram com base na busca de apoio financeiro, por meio de projetos variados. Em um dos casos, a ONG captou R$ 1,8 milhão junto à Petrobras para a compra de material esportivo e a contratação de pessoal.

O instituto funciona de segunda a sexta-feira, e o quadro de funcionários inclui psicóloga, assistente social, pedagoga e profissionais de educação física. Para as crianças e adolescentes, oferece atividades como futebol, música, canoagem, tênis, patinação, dança e cursos profissionalizantes de manutenção de computadores e de embelezamento.

Nos dois últimos casos, os alunos contam com oficinas para trabalhar. Ou seja, além da cidadania, ainda conquistam uma forma de fonte de renda – oito monitores foram formados e, agora, atuam como empregados no instituto, que também mantém um núcleo em Porto Vera Cruz.

– Isto nos dá ânimo na vida, satisfação, força para viver. Conseguimos salvar bastantes jovens – avalia.

Em 2010, quatro anos após a tragédia, Noli e Senaile tiveram outra filha, Valentina, que trouxe ao casal um novo motivo para sorrir. Já em 2011, Noli voltou à cidade onde o filho nasceu e foi sepultado. E mudou radicalmente de vida – ex-comerciante, hoje comercializa hortifrutigranjeiros, produzidos em uma propriedade de 18 hectares.


Uma ONG focada na segurança das baladas

Mais de cinco anos após a morte do filho, Igor, a jornalista Isabel Santos não sabe explicar como canalizou a dor em uma ação concreta: o Ficar – Instituto Igor Carneiro.

– Não tenho nem ideia de como consegui. Em uma semana, a minha revolta era muito grande – afirma.

Em 19 de outubro de 2008, o estudante de Direito de 18 anos foi vítima de uma bala perdida, em uma festa na Associação dos Funcionários do Inter (Asfinter). Conforme Isabel, havia 3 mil jovens em um local onde cabiam mil pessoas. E, por R$ 35, podia-se consumir bebidas alcoólicas à vontade. Os problemas a levaram a se preocupar com as condições de seguranças das baladas.

– Levantei a bandeira de que a morte do meu filho não seria em vão. Vários amigos abraçaram a causa – comenta.

Das lágrimas surgiu o instituto, que fiscaliza e promove ações de conscientização entre os jovens de 12 a 18 anos. Isto inclui visitas a escolas e, até mesmo, a realização de palestras a donos de casas noturnas.

Isabel afirma que, embora tenha viajado a Santa Maria, antes da tragédia da boate Kiss, para falar com os empresários da noite, “ninguém nos escutou”.

– Quando penso na minha dor, penso que pelo menos o nome dele (Igor) está vivo.


Pela paz no trânsito

Um acidente na RS-115, às 23h do dia 17 de agosto de 2007, custou a vida da estudante Jennifer, 16 anos. O atropelamento da menina, porém, serviu como estopim para o início de um trabalho de conscientização promovido pelo pai, o professor de Matemática Airton Schirmer, que criou a ONG Aprendizes Por Vida Breve Hip Hop & Poesia, com atuação em Taquara, Rolante, Igrejinha e Parobé.

Por meio do som do hip-hop, um “atalho para a inclusão”, o grupo passa uma mensagem de conscientização em escolas e comunidades. Cerca de 640 jovens estão envolvidos, alguns dos quais já viraram monitores.

Segundo Schirmer, a decisão de começar o trabalho deu-se mais pela emoção e pelas atitudes de amigos. Por si só, admite, não teria condições.

– Vou ter de ir junto (com os amigos), não posso ficar parado – pensou.

Alvo de uma ação judicial proposta pelo grupo, o local do acidente recebeu tachões, quebra-molas e redutor eletrônico de velocidade.

– No local onde nossa filha perdeu a vida, não houve mais vítimas fatais. Outras pessoas não vão ter este fim.


COMO AJUDAR - Saiba como contatar as entidades

LENON JOEL PELA PAZ
institutolenonjoel.webnode.com.br

FICAR
www.ficar.org.br

HIP HOP & POESIA
hiphopepoesia.yolasite.com

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

COITADO DOS PEDESTRES

JORNAL A NOTICIA DE SÃO LUIZ GONZAGA, 20/11/2013 às 11:21




NEWTON ALVIN


Lamentavelmente, uma senhora de 77 anos morreu após ser atropelada por um motoqueiro, na tarde de sábado, na Avenida Senador Pinheiro Machado. Diante dessa triste ocorrência, ouso dizer aqui que foi uma morte anunciada, como outras que infelizmente poderão ocorrer, por conta da recolocação de sinaleiras e mudança dos locais das faixas de segurança. De repente, em qualquer hora do dia, muitos motoristas de veículos e condutores de motos resolveram disputar velocidade na avenida da cidade e ai de quem estiver na frente, principalmente idosos e crianças.

O colunista vem notando e o nosso jornal bem que alertou diversas vezes o quanto essas mudanças pioraram a situação do pedestre, diante da pista de corridas em que se transformou a nossa avenida. Quase todos pisam no acelerador quando sobem em direção ao centro, sabendo que o freio será usado somente onde está localizada a nova sinaleira. E alguns nem parecem se importar com a faixa de segurança que existe diante do SEG – Escola Técnica José Gomes, com a redução da velocidade ocorrendo logo depois, frente ao semáforo. Nesse local, conferi que a maioria dos pedestres não se anima a atravessar quando vê aqueles bólidos, mesmo diante da faixa que devia representar alguma segurança para eles.

A situação vai piorando na medida em que descemos a avenida. Na esquina com a Rua Gen. Paiva existe uma faixa de segurança praticamente apagada. Se algum incauto tentar a travessia por ali ameaça ser atropelado, pois os condutores de veículos parecem não avistar nenhuma cor branca no asfalto – e ainda aceleram bastante e em ziguezague pela larga artéria que pensam ser somente deles. E não raro vejo pedestres inseguros, temendo o pior diante de uma faixa que praticamente inexiste para os donos de máquinas que podem matar. Por que corre tanto esse pessoal? E cadê a fiscalização ao limite de velocidade no centro?

Mais uma quadra adiante, sempre descendo a avenida, na esquina com a Rua Rui Ramos, há outra faixa quase insepulta, mais apagada ainda. E ali igualmente o pedestre não mostra confiança, pois os veículos não diminuem nunca a velocidade, como manda a mais rudimentar lei do trânsito. E onde a infeliz senhora foi atropelada no sábado, duas quadras adiante, na esquina com a Rua General Câmara, também não existe faixa de segurança, que bem poderia impedir essa morte tão lamentável. Quer dizer, nas principais quadras da avenida, os pedestres estão realmente desprotegidos, vulneráveis diante de mudanças que parecem ter favorecido somente os motoristas e motoqueiros, sem nenhuma ação concreta de proteção aos pedestres.

Como bem disse o psicólogo e perito examinador Eduardo Cadore, que fez uma avaliação do trânsito em São Luiz para o nosso jornal, “a instalação dos dois semáforos apenas atendeu ao interesse dos veículos, para uma maior fluidez”. A recolocação das sinaleiras não está irregular, reconhece Cadore, mas gera o que ele chama de “criminalização do pedestre”. Frisou o especialista em trânsito: “Constatei pessoalmente a hostilidade por parte do condutor, que, além de não dar preferência ao passante, falta-lhe empatia para compreender que este obedece à sinalização, na maioria dos casos”.

Enfatiza Cadore que “embora a legislação afirme que o pedestre tem o dever de deslocar-se até a faixa de segurança mais próxima dentro de 50 metros, convenhamos que é praticamente impossível que ele caminhe meia quadra para atravessar, ignorando aquela ex-faixa, que ainda aparece, mas agora coberta de preto”. E este colunista acentua que a tinta preta dessa faixa está sumindo, com as faixas brancas aparecendo, novamente gloriosas, para confundir ainda mais o infeliz pedestre.

Outro problema anotado por Eduardo Cadore é “a adaptação do motorista que, em muitos casos, acaba não dando preferência ao pedestre nem no cruzamento, quiçá no meio da quadra, local onde acaba por desenvolver um aumento da velocidade”. E ele enfatiza o mesmo pensamento deste colunista: “Fico preocupado com a possibilidade de aumento de atropelamentos após esta medida. Em suma, errado não está, mas o pedestre, mais uma vez, sai perdendo, pois se engana quem pensa que uma faixa no centro da quadra, apagando as dos cruzamentos, lhe dará segurança”. Eis o pensamento de um especialista em trânsito. E eu indago mais uma vez: por que esse pessoal corre tanto? E o que faremos para acabar com essa situação em desfavor do pedestre?

CONTROLE FROUXO



ZERO HORA 22 de novembro de 2013 | N° 17622

EDITORIAIS



É incompreensível a decisão do Departamento Estadual de Trânsito de renovar contratos com Centros de Formação de Condutores investigados por suspeita de facilitar a aprovação de alunos mediante o pagamento de propina. São investigações oficiais, promovidas pela Polícia Civil e pelo próprio Detran, que abriu inquérito administrativo quando os casos foram conhecidos, em junho último. Trata-se de uma imprudência habilitar compulsoriamente as autoescolas de 24 cidades, sabendo-se que apresentaram fortes indícios de irregularidades. O mais sensato seria a suspensão das renovações, até a conclusão das sindicâncias, para que as atividades das empresas não continuem sob suspeita.

As fraudes repetem esquemas que se multiplicam no Rio Grande do Sul e em outros Estados. Sob pagamento de uma quantia que pode chegar a R$ 3 mil, os candidatos a uma carteira de motorista têm a vida facilitada. A Polícia Civil já comprovou o esquema, ao submeter ao teste de direção 23 pessoas que teriam pago a propina. Apenas uma foi aprovada, apesar de todas as outras 22 estarem de posse da carteira. O caso não envolve apenas funcionários dos CFCs, mas também do Estado. Este jornal apurou que dois servidores do Detran sob investigação exerciam cargos de chefia e continuam trabalhando, mesmo que transferidos para outras funções. Os investigados, em combinação com empregados das autoescolas, formavam uma quadrilha que pode resultar no indiciamento de duas dezenas de pessoas.

Além das questões óbvias da legalidade e da moralidade, há outros fatores presentes em casos como este. O mais relevante é certamente o da segurança. Quando se acentua o desrespeito às normas do trânsito e quando se sabe que as tragédias ao volante são geralmente causadas pela combinação de imprudência com imperícia, não é admissível que controles frouxos permitam fraudes como as apuradas nos CFCs. A renovação automática dos contratos só contribui para o aumento desta insegurança.



ZERO HORA 23 de novembro de 2013 | N° 17623

SOBRE ZH



Causou-nos imensa surpresa o conteúdo expresso no editorial “Controle frouxo”, publicado na edição de ontem, que, como qualquer editorial publicado em Zero Hora, expressa a opinião do veículo e quiçá a posição do Grupo RBS.

Surpresa, porque é fundamental, em um Estado de direito, obedecer à lei. E todos devem fazê-lo, estejam ou não de acordo com ela. O mesmo se pode dizer das instituições democraticamente estabelecidas. Muito mal já foi feito, e exponencialmente ampliado pela imprensa, quando essas duas premissas básicas são ignoradas. A condenação prévia é característica dos regimes autoritários e do mais nefasto dos jornalismos, podendo dar causa a irreparáveis injustiças.

No caso concreto, há pessoas de diversos CFCs sendo investigadas pela polícia. Os servidores suspeitos de envolvimento foram afastados da chefia ligada aos CFCs e também estão sendo investigados. Após encerrada essa fase, todos os responsáveis sofrerão as sanções legais, tanto no plano administrativo quanto no penal. Nossa postura é de total confiança na polícia e na Justiça. Quando chegar o momento de o órgão de trânsito agir, ele o fará exemplarmente. Não nos arvoraremos, jamais, em investigadores policiais ou em juízes. Isso, para nós, é uma questão óbvia de moralidade e de legalidade.

Em resumo, é importante manter os serviços públicos funcionando. Se houvéssemos prejulgado funcionários de CFCs e servidores e suspendido atividades, certamente haveria muitas reclamações dos usuários, e mais seguramente ainda essas reclamações seriam acolhidas pela imprensa. Aí, sim, teríamos que nos retratar e rever procedimentos. No caso em tela, nossa tranquilidade é total. Falta nos sentirmos mais confiantes na postura da grande imprensa.

Leonardo Kauer

Diretor-presidente do Detran/RS

MAIS DO QUE IMPUNIDADE

ZERO HORA 22 de novembro de 2013 | N° 17622

ARTIGOS

Foto de Jorge Bengochea.

Carlos Eduardo Richinitti*


“Pense no meu sofrimento, pois pode acontecer contigo”

Esta frase, dita por Francisco, pai da jovem Bruna Capaverde, que teve os sonhos de toda uma breve vida de apenas 16 anos ceifados pela brutalidade do nosso trânsito, escancara, com a tristeza de quem sofre uma dor que não é humana, uma das maiores verdades que levam à situação caótica hoje verificada.

O criminoso que dirige sob o efeito de álcool ou droga, o irresponsável que não respeita velocidade ou regras mínimas de condução segura, transformando o veículo em uma arma fatal, não o faz apenas movido pela impunidade que grassa em nosso meio. O faz, também, acreditando que a desgraça, a perda, a tragédia só acontece com os outros.

Não há maior engano. Todos nós, motoristas ou pedestres, pais, mães, filhos, amigos, somos potenciais vítimas da violência dessa verdadeira chacina a céu aberto que é o trânsito brasileiro.

Não se prioriza educação, a lei é absolutamente frouxa e nós, juristas, talvez até porque esse é um crime que qualquer um pode cometer, em nome de garantias fundamentais, fundamentamos cada vez mais a impunidade que mata como guerra.

O agravante disso tudo é que erros históricos, motivados por interesses exclusivamente econômicos, privilegiam até hoje o transporte privado em desfavor do público, resultando que de forma descontrolada estamos jogando, em vias públicas deficientes e insuficientes, cada vez mais carros para circulação. Isso, misturado com a impunidade, fará com que o número de mortes só aumente.

A jovem Bruna saiu na noite apenas para exercer o seu direito de viver e acabou, sem culpa alguma, recebendo a maior das penas. Acho que está mais do que na hora de a nossa sociedade, em especial quem faz a lei e a aplica, começar a refletir melhor sobre isso tudo, desvinculados de princípios teóricos de Direito e inspirados na frase definitiva, realista e verdadeira de Francisco.

*JUIZ DE DIREITO


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -Este artigo é importante já que seu autor, um juiz de direito, manifesta com toda sinceridade a indignação de todos diante da impunidade dos crimes de trânsito apontando para a falta de prioridade educacional, as leis frouxas e as garantias fundamentais que os juristas são obrigados a conceder.  Infelizmente, apesar de matar milhares de brasileiros, esta "guerra civil" não consegue ter a atenção devida do Congresso Nacional e do CNJ para propor, em nome da supremacia do interesse público, alterações na constituição para reduzir "garantias fundamentais" que impedem a ação coativa da justiça, julgamento ágil e punição exemplar aos criminosos do trânsito.