segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A DOENÇA QUE O ESTADO NÃO TRATA

ZERO HORA 20 de janeiro de 2014 | N° 17679

ARTIGOS

Gabriela Gonchoroski*


Foi o avanço tecnológico das últimas décadas que gerou uma mudança social nos meios de transporte em todo o mundo; no Brasil, esta mudança foi acentuada na década de 70 com a abertura do mercado brasileiro para a instalação das grandes montadoras de automóveis, o que popularizou a utilização desses veículos pelos quatro cantos do país.

Esse fenômeno social foi o facilitador do desenvolvimento do nosso país, permitindo que as periferias estivessem mais próximas dos grandes centros urbanos; juntamente com essa nova realidade, tivemos que aprender a conviver com as perdas que a violência no trânsito nos impõe.

A realidade é uma só: falta ação do Estado. Por mais que as estatísticas demonstrem a falha humana como fator preponderante na ocorrência desses trágicos acidentes, é flagrante a omissão do Estado no enfrentamento da violência do trânsito.

O Brasil está entre os cinco países que mais matam no trânsito, demonstrando claramente que o Estado precisa empreender políticas públicas que viabilizem a redução de mortes em nossas estradas. O trânsito tem sido, para os brasileiros, uma chaga, um tipo avassalador de doença para a qual o Estado não tem ofertado tratamento eficiente. E assim, todo ano, as estatísticas apontam milhares de vítimas fatais e outras tantas com sequelas físicas e psicológicas; que são a prova da ineficiência do sistema.

É dever do Estado intervir no comportamento humano em relação ao trânsito, educando seus cidadãos desde o ensino básico até o nível superior, ensinando-lhes a importância do respeito à vida e o cumprimento às regras de trânsito; é dever do Estado a criação e manutenção de um ordenamento jurídico capaz de assegurar condições de segurança no trânsito e a real punição dos infratores; é dever do Estado o aprimoramento contínuo do sistema de habilitação dos novos condutores e a capacitação contínua daqueles já habilitados, restringindo assim o direito de dirigir àqueles que possuírem capacidade de controlar o veículo para o qual se habilitam. E o mais importante: é dever do Estado assegurar condições seguras de infraestrutura para a circulação dos veículos comercializados, principalmente quando assume uma política de incentivo fiscal a esta comercialização. E, quando o comportamento do cidadão falha, quando o condutor, pedestre e/ou ciclista age colocando em risco os demais, é dever do Estado agir coercitivamente e inibir a repetição desses atos de imprudência ou mesmo imperícia, evitando assim que os mesmos provoquem acidentes.

Neste sentido, temos visto que o Estado brasileiro é falho em todas as suas esferas de atuação no trânsito, possibilitando que na sua ausência se operem os grandes e pequenos desastres, que mais tarde viram estatísticas estampadas nas capas dos jornais velhos, e as vidas que se foram viram apenas números de um ineficiente banco de dados.

*CIENTISTA POLÍTICA, INSTRUTORA DE TRÂNSITO

domingo, 19 de janeiro de 2014

COMO FUNCIONA O SOCORRO DA EGR

ZERO HORA 19 de janeiro de 2014 | N° 17678


SEGURANÇA NAS ESTRADAS. Como funciona o socorro


Durante 15 anos, usuários dos polos rodoviários privados se acostumaram a ver ambulâncias na beira do asfalto – uma cena que transmitia segurança. Com o fim das concessões e a criação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), o socorro nas estradas se tornou alvo de questionamentos. Hoje, o sistema é único em todo o RS. A responsabilidade é do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros, com participação das polícias rodoviárias. ZH elaborou perguntas, que foram respondidas por Samu, EGR e órgãos de segurança do Estado. Confira também um mapa com as bases de atendimento.

Como é feito o atendimento a pessoas feridas em acidentes em rodovias no Estado?

O socorro é feito pelo Samu, com apoio do Corpo de Bombeiros. São acionados os veículos das bases mais próximas do local do acidente.

O que fazer se o acidente for em rodovia estadual?

O usuário poderá ligar para o 192 do Samu, o 193 dos bombeiros ou o 198 do Comando Rodoviário da Brigada Militar, que irá acionar o Samu e/ou os bombeiros mais próximos.

E acidente em rodovia federal?

O usuário poderá ligar para o 192 do Samu, o 193 dos bombeiros ou o 191 da Polícia Rodoviária Federal, que se encarregará de chamar o Samu e/ou os bombeiros mais próximos.

Samu e Corpo de Bombeiros têm atribuições diferentes?

Sim. Os bombeiros agem em caso de incêndio, vítima presa às ferragens e derramamento de óleo na pista. Já o Samu, que conta com profissionais de saúde em todas as suas equipes, é o responsável pelo socorro médico às vítimas. Samu e bombeiros trabalham em parceria para oferecer o atendimento mais adequado.

E se o Samu estiver ocupado?


Acidentes com vítimas sempre serão prioridade. Se a ambulância estiver atuando em um caso menos urgente, o atendimento pode ser revisto, fazendo a mudança de prioridade. O Samu ainda poderá solicitar apoio dos bombeiros ou dos próprios municípios.

Uma prefeitura pode se recusar a enviar seu Samu a um acidente?

Não. Se isso acontecer, por lei, o médico regulador de urgências do SUS (a autoridade sanitária de plantão) poderá mandar prender por omissão de socorro aquele que negar o atendimento. No RS, existem cinco centrais de regulação (duas em Porto Alegre, além de Bagé, Pelotas e Caxias do Sul) com centenas de médicos reguladores.

Há um tempo de espera previsto para o atendimento do Samu?

As equipes trabalham com meta de 10 minutos, que é o tempo recomendado nos serviços de referência mundiais. No Interior, devido à distância das bases do Samu, a espera gira em torno de 15 minutos. Onde as rodovias são de difícil acesso ou a distância a ser percorrida for maior, pode superar os 15 minutos.

Há um trecho mínimo a ser coberto pela unidade do Samu?

Sim. Com o maior número de bases do serviço, que quase dobrou em três anos, a ideia é que nenhuma ambulância percorra uma distância superior a 50 quilômetros.

Quais as vantagens do gerenciamento das ambulâncias por GPS?

O projeto de disparo inteligente de ambulância, com localização via GPS e acionamento por mensagem de texto, começou há alguns meses em Porto Alegre. Nos próximos dias, entra em operação na Região Metropolitana, Litoral e nas 40 unidades de suporte avançado. Com o uso de smartphones, pula-se a etapa de comunicação via rádio, gerando melhora de até três minutos no tempo de resposta das equipes.

O Samu tem capacidade para atender à demanda?

A secretária da Saúde, Sandra Fagundes, afirmou que a “população pode viajar tranquila”, porque o número de bases passou de 85 em 2010 para 160 no ano passado. E até o fim de 2014 serão inauguradas mais 38. O coordenador estadual do serviço, Maicon de Paula Vargas, também garante que é mais tranquilo viajar hoje do que no sistema anterior.

Há diferença entre ambulâncias?

As unidades de suporte avançado (UTI móveis) contam com médico e equipamentos operados por esses profissionais, como ventilador pulmonar. São 40 nessa categoria. Já as de suporte básico possuem técnico em enfermagem e condutor socorrista. São 190 desses veículos. O Samu ainda tem 10 motolâncias, 10 veículos de intervenção rápida e um helicóptero.

E a estrutura dos bombeiros no Interior é suficiente?

O governo anunciou investimentos na corporação para fazer frente à demanda. Até o fim do ano, o efetivo deve ganhar o reforço de 400 homens. E a EGR prometeu repassar aos bombeiros 31 veículos de resgate até março.

Por que a EGR não manteve o modelo adotado pelas concessionárias, em que veículos de resgate ficavam nas estradas?

A empresa alega que o serviço era limitado, que não era oferecido em todas as praças e os veículos não tinham os equipamentos necessários. Como o socorro, segundo a EGR, normalmente era feito pelo Samu e bombeiros, a opção foi reforçar a estrutura de ambos.

Se a ambulância de um município for deslocada para atender a um acidente na estrada, quem irá socorrer os moradores deste município em caso de urgência?

A orientação aos viajantes é entrar em contato pelo telefone 192 com o Samu, que irá verificar a disponibilidade de ambulâncias, inclusive da rede municipal. Se não houver veículo à disposição, terão de ser utilizados meios próprios.

Existe uma central que receba reclamações sobre o atendimento nas estradas?

As queixas podem ser feitas junto à ouvidoria da EGR, pelo telefone 0800-648-3903, das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Em fevereiro, com a contratação de uma empresa de call center, o atendimento será 24h.

O atendimento telefônico de PRF, Samu, Corpo de Bombeiros e Comando Rodoviário da BM é centralizado ou funciona por meio de centros regionais?

A ligação do usuário é automaticamente redirecionada para a central regional mais próxima da sua localização. Cada uma das instituições possui a sua central.

De que forma o convênio da EGR com Samu e Corpo de Bombeiros irá beneficiar os usuários das estradas gaúchas?

Conforme o presidente da EGR, Luiz Carlos Bertotto, o atendimento será mais amplo e qualificado. Para tranquilizar os viajantes, o governo vem anunciando uma série de medidas, como investimentos no Samu e nos bombeiros, que somarão R$ 9 milhões neste ano.


 


sábado, 18 de janeiro de 2014

IRRESPONSÁVEIS REINCIDENTES



ZERO HORA 18 de janeiro de 2014 | N° 17677


EDITORIAIS


Uma sequência de falhas e omissões explica as lamentáveis estatísticas divulgadas pelo Detran, segundo as quais um em cada 10 motoristas flagrados dirigindo sob o efeito de álcool é reincidente. É um dado constrangedor para quem fiscaliza e para as instituições que têm o dever de estabelecer penas para os infratores. O flagrante de 2.062 motoristas nessa situação no ano passado conspira contra todos os esforços e ações como a Balada Segura e as operações realizadas pela Polícia Rodoviária nas estradas. É preciso que se investigue onde estão as brechas que permitem as reincidências, algumas absurdas, como as de seis motoristas que já foram abordados alcoolizados pela polícia oito vezes ou mais.

Uma das explicações para as repetições é frágil demais para sustentar qualquer argumento. É a que informa que o processo de suspensão do direito de dirigir pode demorar até 14 meses. Até o desfecho do julgamento, o motorista, como ainda não foi condenado, poderia continuar dispondo do direito de conduzir veículos. É óbvio que essa desculpa não serve nem mesmo para atenuar o drama de consciência dos infratores. Até porque se sabe que os próprios motoristas que já tiveram a carteira de habilitação cassada continuam conduzindo veículos em ruas e estradas.

O que falta é um maior controle dos órgãos de fiscalização, para que a polícia não continue flagrando os infratores uma, duas e até oito vezes. É um desperdício de recursos humanos e materiais, de tempo e de energia de servidores públicos prender e deixar sem punição os que põem em risco a vida de terceiros. Além disso, é no mínimo perturbador que a Justiça continue tratando com certa benevolência os responsáveis por mortes no trânsito em circunstâncias claramente identificadas como criminosas. Comunidades, polícia, Ministério Público e Justiça não podem ser condescendentes com quem, antes de beber e dirigir, está consciente do risco de que pode matar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

TRAGÉDIA QUE SE REPETE NA BR-386



ZERO HORA 16 de janeiro de 2014 | N° 17675


Acidente na BR-386 mata sete pessoas



Uma das mais perigosas estradas do Rio Grande do Sul fez novas vítimas no início da noite de ontem. Em um trecho sinuoso, no km 308, em Pouso Novo, o choque de um caminhão e quatro carros tirou a vida de sete pessoas e deixou outras quatro feridas.

Carros desfigurados, marcas de frenagem no asfalto, famílias enlutadas. Cenas trágicas como essas voltaram a se repetir ontem na BR-386. Por volta de 19h20min, um acidente tirou a vida de sete pessoas e deixou outras quatro feridas em Pouso Novo, no Vale do Taquari.

De acordo com informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), um caminhão com placas de São Miguel das Missões, no noroeste do Estado, teria provocado um acidente que envolveu quatro veículos de passeio, no km 308 da rodovia.

Até o fechamento desta edição, os nomes das vítimas não haviam sido confirmados pela polícia. Segundo informações preliminares da PRF, cinco mortos estavam no Tipo, que se incendiou no local. Em um Uno, que também pegou fogo, estava outra vítima fatal. Além deles, o condutor do caminhão morreu no local. Os outros carros envolvidos no acidente foram um Premio, onde viajavam as quatro pessoas que ficaram feridas, e um Corolla, que sofreu apenas uma batida leve.

Segundo a PRF, o Tipo, o Premio e o caminhão desciam uma ladeira no sentido Interior-Capital. Aparentemente sem freios, conforme testemunhas relataram à PRF, o caminhão teria batido na traseira do Premio, que teria se chocado com a traseira do Tipo. Descontrolado, o Tipo teria batido no Uno que vinha no sentido contrário.

As versões sobre o acidente são conflitantes. Um sobrevivente que estava na carona do Premio (leia a entrevista na página ao lado) afirmou que o veículo em que estava não foi atingido pelo caminhão – este teria batido diretamente na traseira do Tipo, fazendo com que o motorista perdesse o controle. O sobrevivente diz também que um dos pneus da caminhão estourou antes do choque.

Integrantes da mesma família, os passageiros do Premio e do Tipo retornavam de Tiradentes, no Noroeste, para onde haviam viajado para enterrar uma parente. O grupo residia em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana.

Os feridos foram encaminhados em estado regular ao Hospital de Lajeado, também no Vale do Taquari, e liberados poucas horas depois. A estrada foi bloqueada no sentido Capital-Interior, provocando congestionamento nos dois sentidos.

Mais cedo, outro acidente, ocorrido na região central do Estado, havia matado duas pessoas. Um jovem e um adolescente morreram na BR-287, em Santiago, por volta das 4h de ontem. De acordo com informações da PRF, o Palio em que eles trafegavam no sentido Santiago-Jaguari e, no km 379,6, chocou-se contra uma árvore. Vitor Soares Alves, 22 anos, e Dionatan de Oliveira Furquim, 15 anos, morreram na hora. O impacto da colisão partiu o carro em vários pedaços.


UM TRECHO PERIGOSO



Veja histórico de acidentes fatais na BR-386, em Pouso Novo


21 DE JULHO DE 2012
 - Um acidente envolvendo dois caminhões e dois automóveis, no km 294, a seis quilômetros da sede do município, deixou um saldo de quatro mortos, incluindo uma criança, e de um ferido grave. O acidente, pouco depois da meia-noite, aconteceu em uma subida da serra em direção a Soledade.
2 DE SETEMBRO DE 2011 - O choque entre um caminhão, um ônibus e um Celta causou a morte de quatro pessoas e deixou 41 feridos. A colisão aconteceu por volta das 21h30min no km 304, em um ponto íngreme da estrada. A BR-386 ficou cerca de sete horas para socorro às vítimas.



8 DE JANEIRO DE 2010 - Uma colisão entre três caminhões resultou na morte de quatro pessoas. O acidente aconteceu por volta das 17h, no km 305 da rodovia.


29 DE SETEMBRO DE 2006 - O prefeito de Pouso Novo, Nelso Dall’Agnol, morreu em uma colisão com uma carreta carregada com 37 toneladas de soja. O acidente ocorreu por volta das 15h, no km 337 da rodovia, próximo ao acesso a Forquetinha.

sábado, 11 de janeiro de 2014

IMPUNIDADE AO VOLANTE

ZERO HORA 11 de janeiro de 2014 | N° 17670


EDITORIAIS



É perturbadora a informação do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) de que mais de 15 mil motoristas autuados por infrações gravíssimas entre elas, embriaguez ao volante seguem dirigindo livremente. Com isso, impõem risco permanente a si mesmos e a quem transita por ruas e rodovias gaúchas. O perigo se mantém devido ao excesso de burocracia e às margens oferecidas pela legislação de trânsito para que os infratores possam recorrer indefinidamente. O resultado é que, na prática, chegam a transcorrer dois anos entre o registro da infração e o momento em que a punição se concretiza, com o recolhimento da carteira de habilitação.

Obviamente, não se trata de defender punição sumária para motoristas pegos embriagados na direção de um veículo, ou em alta velocidade, ou que tenham completado mais de 20 pontos na carteira em um período de 12 meses. Mas fica difícil aceitar que, dos milhares incluídos nessa situação, poucos tenham sido efetivamente punidos e menos ainda ficado sem o documento de habilitação.

Dirigir veículo é um ato de responsabilidade, que exige atenção permanente. Se, mesmo consciente disso, o motorista bebe antes de assumir o volante ou imprime velocidade excessiva ao veículo, é preciso que arque com as consequências.

A sociedade não tem como deixar de pensar em até que ponto adianta o país ter penas rígidas se elas não servem para punir os faltosos, nem ao menos para protegê-la dos riscos que implicam ao volante. Ainda assim, precisa zelar para que o poder público cumpra o seu papel, agindo preferencialmente de forma preventiva e, quando isso for impossível, punindo com rigor os transgressores.

RS TEM MAIS DE 15 MIL MOTORISTAS IRREGULARES

ZERO HORA 10 de janeiro de 2014 | N° 17669

LARA ELY


IMPUNIDADE. Condutores com direito de dirigir suspenso driblam a lei ao não entregar habilitações às autoridades



A suspensão e a cassação do direito de dirigir não têm sido suficiente para manter maus motoristas longe das ruas e estradas do Rio Grande do Sul. Dados de 2013 do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) revelam que 15.154 mil condutores autuados por infrações gravíssimas – como embriaguez ao volante – ou por exceder o limite de 20 pontos em um período de 12 meses não entregaram a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) às autoridades.

No ano passado, 28.725 condutores tiveram a carteira suspensa ou cassada, mas apenas 13.571 habilitações foram recolhidas. A burocracia que permite uma série de recursos, segundo o chefe da Divisão de Cassação e Suspensão de Condutores do Detran, Anderson Barcellos, ajuda a explicar o descompasso entre o registro da infração e a punição do motorista.

– Após a abertura do processo administrativo, devem transcorrer todos os prazos de defesas, recursos em primeira e segunda instâncias, até que saia a decisão final. Depois desse período, o motorista ainda pode recorrer à Justiça. Até a decisão final, podem passar mais de dois anos – explica.

A fiscalização vem aumentando ano a ano no Rio Grande do Sul (veja gráfico ao lado), mas a impunidade ainda é um desafio a ser superado. No ano passado, foram abertos 8.867 processos de cassação, mas só 749 motoristas acabaram punidos e apenas 37 carteiras foram entregues.

Brigada bateu na porta dos infratores em 2011

Mesmo após a perda do direito de dirigir, é possível que grande parte dos motoristas continue conduzindo irregularmente. Isso ocorre porque as autoridades têm dificuldade de fiscalizar e recolher as carteiras dos infratores. Em 2011, policiais militares chegaram a visitar residências para intimar mais de 7 mil infratores no Estado, mas a iniciativa não teve continuidade.

Ativista em projetos de educação no trânsito, Diza Gonzaga, da ONG Vida Urgente, vê com revolta o fato de que condutores que cometem crimes de trânsito continuem dirigindo de forma impune. Para ela, a fiscalização atual não age de forma pedagógica:

– Temos uma sensação de impunidade porque existe lei, existem taxas, mas os culpados continuam ilesos. É como o pai que diz que vai colocar de castigo, mas não cumpre com sua palavra, e permite que o filho siga agindo errado.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A ESTREIA DE SIMULADORES NO RS

ZERO HORA 09 de janeiro de 2014 | N° 17668

ROBERTO AZAMBUJA

TESTE REAL

Centros de Formação de Motoristas começam a instalar equipamentos obrigatórios para os candidatos a nova habilitação


No meio da pista, surge um rebanho de ovelhas. O tempo muda, e começa a chover. O para-brisa entra em ação para limpar o campo de visão, embaçado pela água no vidro. Agora é o terreno que muda, o que era asfalto vira brita, e o volante treme como se fosse estrada de chão batido.

Omotorista está sentado confortavelmente no banco de um carro, mas à sua frente três televisores de tela plana e 32 polegadas transmitem diferentes situações vividas no dia a dia a bordo de um automóvel. Como se estivesse imerso em um fliperama, ao final do trajeto, o condutor recebe a lista de infrações e manobras perigosas feitas nos 30 minutos de prática.

No CFC Rumo Certo, em Gravataí, foi feito ontem o primeiro teste de integração dos simuladores de direção ao sistema do Departamento Estadual de Trânsito do RS (Detran-RS). Os equipamentos passaram a ser obrigatórios em Centros de Formação de Condutores (CFCs) do país no início do ano. Segundo resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), novos condutores de categoria B (automóveis) devem realizar cinco aulas de 30 minutos em simuladores de direção, ao custo de R$ 235,30. Com isso, o preço da carteira de habilitação terá um acréscimo de cerca de 20% (de R$ 1 mil para R$ 1,2 mil aproximadamente).

Dados serão transmitidos em tempo real para o Detran

As aulas serão monitoradas por câmeras nas salas dos CFCs, e os dados da simulação serão transferidos em tempo real para o Detran. Apesar do processo de adequação ter começado nos primeiros dias de 2014, não deve haver atrasos na entrega de novas licenças, segundo o coordenador de habilitação do Detran-RS, Jonas Bays. A medida passou a valer para alunos que se inscreverem nos CFCs a partir de 2 de janeiro e precisam realizar exame médico e psicológico, 45 horas/aula de curso teórico e a prova teórica antes de partir para o equipamento. Quem iniciou o processo antes desta data não é obrigado a usar o simulador.

– A primeira impressão é de que o simulador seria inócuo, mas parece bem interessante. Porém, evidentemente, a realidade virtual deixa muito a desejar à situação real – observa o engenheiro e especialista em trânsito Walter Kauffmann Neto.

O presidente do Sindicato dos CFCs e Auto e Moto Escolas do Estado (SindiCFC), Edson Cunha, dono do CFC Rumo Certo, acredita que a maioria dos centros já terá adquirido os simuladores até o final de janeiro. São 273 unidades no Rio Grande do Sul, que habilitam 57 mil condutores por mês.

– Pelo menos estarão na fase final de implantação – diz Cunha.

Contudo, no Brasil existem quatro empresas homologadas pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) para fabricar os equipamentos – uma delas a Real Drive, de Caxias do Sul – ao custo de R$ 40 mil. Alguns CFCs estão adquirindo os simuladores em consórcios ou em forma de comodato, no qual alugam o simulador e pagam à empresa por horas de aula.


TIRE SUAS DÚVIDAS

Quem será obrigado a ter aulas com simulador?
Todos os alunos que pretenderem tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), categoria B (automóveis), e iniciaram o processo a partir de 2 de janeiro de 2014. As aulas ocorrerão após aprovação na prova teórica.

Iniciei o processo em 31 de dezembro de 2013 e ainda não fiz as aulas práticas. Serei obrigado a passar pelo simulador depois da prova teórica?
Não. Os aspirantes a condutor que já iniciaram o processo da primeira habilitação antes do dia 2 de janeiro não precisam fazer aulas com o simulador.

Eu pagarei mais caro pela CNH?
Sim. Quem iniciou o processo da primeira habilitação a partir de 2 de janeiro terá de realizar cinco aulas de 30 minutos extras no simulador, após aprovação na prova teórica, ao custo de R$ 47,06 por exercício. Ao todo, o acréscimo será de R$ 235,30, cerca de 20% a mais do valor atual de uma carteira de motorista.

Pessoas que necessitam de veículos adaptados precisarão realizar as aulas?
Não, até que o Conselho Nacional de Trânsito publique a regulamentação específica.

Os CFCs terão os simuladores até quando?
De acordo com o SindiCFC, a maioria terá o equipamento até o final de janeiro. As unidades devem entrar em contato direto com as empresas fabricantes. Aqueles que não conseguirem adquiri-lo até o início das primeiras aulas podem fazer uso compartilhado com outros centros, desde que da mesma cidade.

A OPINIÃO DE QUEM EXPERIMENTOU

VANESSA DA SILVA RIBEIRO
, 29 anos, auxiliar de produção e aluna do CFC - A princípio, está sendo uma boa ideia, para quem nunca dirigiu e não tem noção do trânsito. Tenho moto, já peguei chuva, frio. O legal é que simula chuva, nevoeiro. E, fazendo uma aula prática, daqui a pouco a pessoa não encontra isso. Pode pegar todos os dias de sol e tempo bom. Passei por uma rua que era de brita e senti a direção tremer, como se estivesse em estrada de chão. A sinalização é bem visível, o carro passa por faixa de pedestre, cruzamentos. Achei bem interessante essa ideia. Não posso dizer que notei diferença porque nunca dirigi um carro. Se é para a pessoa ter uma noção de tempo e direção, vale a pena pagar. Até porque, quando começar a aula prática, vou saber onde se liga o sinal, as marchas, o limpador de para-brisa. Tendo essa simulação, dá para saber mais ou menos como é o trânsito.

WALTER KAUFFMANN NETO (na foto, ao volante), engenheiro e especialista em trânsito - O primeiro contato com o simulador foi bastante surpreendente. Em si, ele tem diversas diferenças em relação ao comportamento de um automóvel real. Porém, o software é muito bem planejado e coloca a pessoa em situações de risco que se tem contato no dia a dia. Eu vivenciei situações de chuva, de animais atravessando a pista, de veículo acidentado, de emergência em poucos minutos que manipulei o aparelho. O simulador expõe o aluno a situações de realidade em via urbana. Em termos de realidade virtual, deixa muito a desejar, evidentemente, comparado a uma situação real. Porém, acredito que o objetivo seja um contato didático com situações de perigo do dia a dia. Como sistema de educação complementar para o trânsito, ele tem uma utilidade bastante boa.